E se a tua maior maldição fosse viver eternamente?! Uma história contada, onde o surreal de uma maldição vem assombrar uma mulher que negou a morte!

08
Mar 09

 

Fiz a semana passada trezentos e trinta e cinco anos e sei que muitos mais farei. Não! Se me perguntarem se sempre fui velha, respondo-vos negativamente… já fui daquelas raparigas de pele macia, com os olhos brilhantes, as mãos delgadas a postura estóica e o cabelo ondulado, mas hoje apenas vereis uma cordilheira de rugas, um olhar vazio, procurando desesperadamente a morte e nunca a encontrando, mas sei que vou mudar, pelo menos por fora!
Que mal-educada que sou, que nem me apresentei… Chamo-me Elisabete Cecília Morais Cosmopolita Andrade da Conceição Antunes, filha de Manuel Bartolomeu Morais e Sofia Patrícia Gomes Morais e fui casada quatro maravilhosas vezes com esses homens que decidi guardar-lhes o nome na memória dos tempos já que a morte os quis levar, mas eu sempre os quis ao meu lado.
Ainda me lembro do sorriso do meu primeiro marido. Maroto, encantava-me sempre que sorria maliciosamente e eu caída, derretida em paixões loucas, era escrava dele, escrava do amor. Já no segundo, o que mais me surpreendia era a sua cultura… ainda hoje não encontrei um homem tão sábio, mas recordo avidamente os debates que elaborávamos nas nossas sessões de sexta-feira, à lareira. O terceiro era o mais romântico de todos. Sabia utilizar as palavras para conquistar as donzelas. Cada sílaba era um poema, cada gesto um carinho, uma ternura… já não se fazem homens assim! O quarto, Alexandre Nuno Antunes, o único que a memória me permite dizer o nome e Deus sabe, se existir, o quão rápido esqueço o nome das pessoas que amo, era o aventureiro. Libertou-me o espírito e é dele que tenho o hábito de mudar de casa todos os anos, conhecer o mundo, fazer aquilo que a morte faz aos outros temer.
Daqui a poucos dias, tornar-me-ei a mudar. Estou a pensar voltar à minha terra Natal, onde conheci estes meus quatro maridos, visitar a campa deles e talvez encontrar o novo amor. Afinal o meu destino é esse – sofrer! A minha sigma está traçada há muito tempo e pelas ínfimas vezes que já lhe tentei fugir, nunca consegui. Aliás, é de toda esta maldição que me assombra durante todos estes anos, de que eu vos quero falar.
Não pensem que eu estou maluca, que perdi todo o bom senso que a juventude se diz dotada, porque ao ouvirdes a minha história ireis perceber todo o meu sofrimento, todos estes infinitos anos que vivi, desejando a morte. Sim, é uma história interessante, que eu vos vou contar – a minha história.
Mas antes disso, vou preparar o meu chá de camomila. Batem as quatro horas no meu relógio de cuco. Já o pensei mudar várias vezes, trocá-lo por outro mais novo, que este já tem quase tantos anos como eu mesma. Mas é a única recordação da minha primeira filha. Filha do meu primeiro casamento. E nem do nome dela me recordo. Apenas da sua humildade e generosidade e de me ter dado este velho relógio, que hoje bate as quatro horas, junto da lareira apagada e que me recorda, que para mim o tempo é um tormento.
publicado por stevs às 17:26

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