E se a tua maior maldição fosse viver eternamente?! Uma história contada, onde o surreal de uma maldição vem assombrar uma mulher que negou a morte!

22
Mai 09

 

E eu, naquela noite tenebrosa, ouvindo o chamamento daquela sombra, daquela voz velhaca e feminina, aproximei-me, receosa, sentindo a cada passo que dava um arrepio descontrolado a subir-me pela espinha.
- Não tenhas medo… não, não tenhas e aproxima-te. – Sussurrava a sombra cada vez mais baixo, para que eu me curvasse para melhor a ouvir.

E eu aproximei-me, agachando-me perto daquela sombra de rosto desconhecido… e aí, uma mão esquelética, com a pele sumida e enrugada, com os dedos esguios e pontiagudos agarrou-me no queixo para finalmente me olhar de frente.

A partir daí tudo foi muito repentino… lembro-me de ver um olhar vermelho a furar os meus pensamentos e aí, dominando todo o meu consciente, milhões de flashes percorreram os canais do meu cérebro. Sim! Era como se estivesse a tirar fotografias a lugares e pessoas que nunca tinha visto. Lembro-me de ter visto um homem, de cabelo loiro a olhar para mim. Lembro-me de ver uma floresta mais negra que aquela mesma noite, ver uma estátua mais pálida que o luar e um vulto mais assustador que a própria sombra que me agarrara a face. Ainda me recordo, que depois disso, ter visto milhares de paisagens, de ver água à minha volta com bolhas a flutuar e ter a sensação que me afogava. Vi ainda fogo, muito fogo a arder e a queimar-me a pele e por fim, vi gotas de sangue a cair num charco dele. Eram milhões de flashes que percorriam a minha mente, dando-me sensações terrivelmente aterradoras. Por dentro sentia-me mal, enjoada, quase a vomitar, quando aquela mão desguarnecida me soltou o rosto. O seu voltou a esconder-se na sombra e apenas a sua voz, somente a sua voz era capaz de me fazer estremecer e acalmar ao mesmo tempo. Sim! Nunca me sentira assim aterrorizada, nunca sentira o meu coração bater daquela maneira, as minhas veias deixarem fluir o sangue como um rio num dia de temporal. Mas não era por isso que a noite deixara de ser calma, tornando o ambiente ainda mais tormentoso. A coruja continuava a ulular no seu ritmo normal e soturno, a raposa continuou a devorar a galinha que deixara de estremecer, o vento continuou a sua ausência e as estrelas teimavam em se manterem escondidas e eu, ali parada, sem qualquer reacção, apenas deixando o meu corpo se sentir cada vez mais pesado, quase a cair.

- Sim! O futuro, por vezes, mais valia ficar na penumbra da noite… porque tantos o querem saber? E tu, que nada procuraste, encontraste aquilo que, infelizmente, não querias ver.
E foram as  últimas palavras que ouvi daquela mulher. Nunca mais a voltei a ver, ali, no fim da rua calcetada e no inicio do caminho poeirento. Nunca pôde ela me dizer o que tudo aquilo significava e só mais tarde... sim... só mais tarde é que eu percebi todas aquelas imagens, que naquela noite me deixaram sem fôlego.
 
publicado por stevs às 22:20

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