E se a tua maior maldição fosse viver eternamente?! Uma história contada, onde o surreal de uma maldição vem assombrar uma mulher que negou a morte!

13
Mar 09

 

Não ligueis à desarrumação desta minha cozinha. Apesar de não estar morta, sou velha e como qualquer pessoa de idade, que já mal aguento com as pernas de tão fracos os ossos serem… desta vez diagnosticaram-me osteoporose… não tenho forças para manter esta casa tão limpa como antes e por isso, de quando em vez, principalmente quando tenho visitas, aparecem objectos espalhados em cada canto. Mas não é por isso que sou uma porca, tomo banho todos os dias e nunca ninguém saiu afugentado da minha casa por causa de algum cheiro mais desagradável. Mas já dou um jeito a isto, mas antes vou preparar o meu chá de camomila.
Sentai-vos, sentai-vos aqui numa cadeira. Vou-vos contar uma história que a minha avó me contava quando eu era pequenina. Devia tê-la ouvido enquanto era tempo, mas faleceu antes que eu pudesse compreender as lições de vida e quando finalmente as percebi por mim mesma, já era tarde demais. Dizem que mais vale tarde do que nunca… não sei se estou de acordo com tal. Até porque vivemos num mundo em que o tempo é precioso e se chegarmos tarde, o mais provável é que já não conseguiremos recuperar a oportunidade do momento. Se eu tivesse ouvido a minha avó…!
A história fala de um jovem rapaz, menino pequeno, de família pobre, cujo nome não interessa, até porque não me lembro desse pormenor. O menino apesar de pobre era esperto, mas sofria as repressões do pai, que todas as noites, alcoolizado, batia na mãe, com o cinto, ora na mão do homem, ora nas costas da pobre mulher que ele ouvia gritar todas as noites. E depois de bater na mãe, ia ter com o seu filho, que deitado na cama (se se podia chamar de cama), fingia dormir. Aí, o pai, todo bêbedo, pegava numa caneca de água quente e deitava nos pés do pobre menino, que por sua vez gritava, enquanto o pai se ria em sons macabros. Todas as noites isto acontecia, até que certo dia, quando vira a mãe já em total desespero, decidira fugir para a floresta, que rodeava a pobre cabana que eles habitavam. O menino andou, andou, pensando em todo o sofrimento que vivenciava todas as noites. Andou, andou, lembrando-se que esta noite a sua mãe tornaria a gritar, sentindo a “comichão” do cinto nas suas costas. Andou, andou, recordando as histórias que lhe contavam, de uma bruxa que vivia na floresta. E lá andou ele, à procura da bruxa, esperando que ela lhe pudesse ajudar a resolver o seu problema. O que ninguém lhe contou é que as bruxas são como as raposas – matreiras. E lá andou o rapaz, até no mais profundo da floresta até que, já no fim da tarde, encontrou o escondido lar da bruxa. Três vezes bateu à porta e três vezes ouviu o cachinar da voz da bruxa a dizê-lo para entrar: “Entra meu menino, entra, entra. O que te traz por aqui?”. E muito nervoso o rapaz respondeu: “Quero que todo o meu sofrimento acabe… para isso, peço se existe alguma maneira de o meu pai deixar de beber?”. A bruxa não demorou a responder: “É claro que há meu menino! Tudo tem solução.”. “E o que me custará essa solução?” respondeu o menino, sabendo que na vida tudo tinha um preço. “Ora bem, como é para ti, farei isso sem pedir nada em troca. Pois ao contrário do que dizem, eu apenas vivo para me divertir”.
E aceitando a oferta da bruxa, sem questionar as suas intenções, apenas procurando uma solução para o seu problema, o menino voltou para casa, esperando que quando chegasse, visse, esta noite, o pai sóbrio e a mãe a sorrir, pela primeira vez. E assim aconteceu, quando chegou a casa vira o pai sóbrio. “Pai! Hoje não bebeste!”, exclamou o menino ao ver o pai. Mas logo a alegria desapareceu. “Pois não, meu filho. Finalmente dei conta do mal que vos fazia, por causa do maldito álcool” respondeu-lhe o pai. “Por isso é que decidi queimar o álcool da minha vida e da vossa.” E assim, pegou na garrafa, cheia de álcool, que estava em cima da pobre mesa de madeira e espalhou todo o álcool por tudo o que era sitio, lançando em seguida um fósforo aceso. E o menino, assustado com a maluqueira repentina do pai, via a casa a arder, bem como o corpo da sua mãe e o seu próprio corpo. E enquanto as chamas consumiam as três vítimas, o rapaz ouvia o gargalhar da bruxa, que os espreitava do lado de fora da janela daquela pobre cabana.
 
publicado por stevs às 22:28

09
Mar 09

 

Se me quiserdes acompanhar até à cozinha, apresentar-vos-ei a minha casa. Não lhe chamo de lar, porque como vos disse, estou a mudar constantemente de país, mas para esta história vos contar, sentar-me-ei depois na minha grande e confortável poltrona, esperando que vós mesmo façais o mesmo, vos sentais confortavelmente, bem quentes, e quando a noite cair, vos agarreis à almofada, que a minha narrativa não é um conto de fada… bem pelo contrário… eu apenas vejo terror.

 

Se há algo que em todas as casas, que habitei ao longo dos anos, se assemelhavam, é neste quadro, que em todas elas pendurei nas paredes dos corredores. Não sei explicar, mas esta sensação de luz, no meio de um espaço negro, faz-me continuar a acreditar que Deus existe mesmo, apesar de tudo aquilo que já me fez passar. Bem! Na verdade, de nada o culpo, a culpa é inteiramente minha e ao contrário do que muitos dizem, eu acredito que Deus não pode controlar as nossas vidas. Não haveria ele ter mais que fazer e para que nos serviria sermos livres se teríamos de executar as ordens de alguém? Assim, eu quis ser livre, quis fazer escolhas e agora sofro as consequências das minhas decisões. Tenho pena é que elas acabaram por afectar aqueles que mais amei e aqueles que possivelmente amarei. Por isso é que me tento afastar das pessoas, não quero fazer sofrer os outros, por minha causa. Ninguém merece tal coisa.

Agora que o vejo, este tapete de lã é outro artefacto que me acompanha desde sempre. Foi-me oferecido por uma tribo africana. Gente simples, arcaica, mas boa. Acho que a única que conseguiu ficar estável com a minha presença no meio deles. Mas preferi retirar-me, apesar de lá me sentir em segurança. Como diz o ditado: água mole, pedra dura, tanto bate, até que fura. E eu não quis arriscar, brincar com o fogo e queimar-me a mim e a eles. Mas sempre que não consigo dormir, que de noite os meus demónios são ferozes, venho para o corredor e deito-me neste tapete, sob a vigília da tribo desenhada e do Deus que eles contemplam, neste fundo castanho claro de lã! Antes as dores da coluna, que as dores da alma. Acreditai que doem mais. E assim durmo mais descansada, se isto não fosse vida (apesar de eu já não qualificar assim a que tenho), passaria todas as minhas noites neste tapete de lã, debaixo do meu quadro negro.

publicado por stevs às 11:21

08
Mar 09

 

Fiz a semana passada trezentos e trinta e cinco anos e sei que muitos mais farei. Não! Se me perguntarem se sempre fui velha, respondo-vos negativamente… já fui daquelas raparigas de pele macia, com os olhos brilhantes, as mãos delgadas a postura estóica e o cabelo ondulado, mas hoje apenas vereis uma cordilheira de rugas, um olhar vazio, procurando desesperadamente a morte e nunca a encontrando, mas sei que vou mudar, pelo menos por fora!
Que mal-educada que sou, que nem me apresentei… Chamo-me Elisabete Cecília Morais Cosmopolita Andrade da Conceição Antunes, filha de Manuel Bartolomeu Morais e Sofia Patrícia Gomes Morais e fui casada quatro maravilhosas vezes com esses homens que decidi guardar-lhes o nome na memória dos tempos já que a morte os quis levar, mas eu sempre os quis ao meu lado.
Ainda me lembro do sorriso do meu primeiro marido. Maroto, encantava-me sempre que sorria maliciosamente e eu caída, derretida em paixões loucas, era escrava dele, escrava do amor. Já no segundo, o que mais me surpreendia era a sua cultura… ainda hoje não encontrei um homem tão sábio, mas recordo avidamente os debates que elaborávamos nas nossas sessões de sexta-feira, à lareira. O terceiro era o mais romântico de todos. Sabia utilizar as palavras para conquistar as donzelas. Cada sílaba era um poema, cada gesto um carinho, uma ternura… já não se fazem homens assim! O quarto, Alexandre Nuno Antunes, o único que a memória me permite dizer o nome e Deus sabe, se existir, o quão rápido esqueço o nome das pessoas que amo, era o aventureiro. Libertou-me o espírito e é dele que tenho o hábito de mudar de casa todos os anos, conhecer o mundo, fazer aquilo que a morte faz aos outros temer.
Daqui a poucos dias, tornar-me-ei a mudar. Estou a pensar voltar à minha terra Natal, onde conheci estes meus quatro maridos, visitar a campa deles e talvez encontrar o novo amor. Afinal o meu destino é esse – sofrer! A minha sigma está traçada há muito tempo e pelas ínfimas vezes que já lhe tentei fugir, nunca consegui. Aliás, é de toda esta maldição que me assombra durante todos estes anos, de que eu vos quero falar.
Não pensem que eu estou maluca, que perdi todo o bom senso que a juventude se diz dotada, porque ao ouvirdes a minha história ireis perceber todo o meu sofrimento, todos estes infinitos anos que vivi, desejando a morte. Sim, é uma história interessante, que eu vos vou contar – a minha história.
Mas antes disso, vou preparar o meu chá de camomila. Batem as quatro horas no meu relógio de cuco. Já o pensei mudar várias vezes, trocá-lo por outro mais novo, que este já tem quase tantos anos como eu mesma. Mas é a única recordação da minha primeira filha. Filha do meu primeiro casamento. E nem do nome dela me recordo. Apenas da sua humildade e generosidade e de me ter dado este velho relógio, que hoje bate as quatro horas, junto da lareira apagada e que me recorda, que para mim o tempo é um tormento.
publicado por stevs às 17:26

Olá a todos!

A maioria  de vocês já conhece o meu "first" blog: pra_se_falar.blogs.sapo.pt , mas cá estou eu, com mais um.

Esta "nova ideia" baseia-se, como muitos blogueiros também fazem, em escrever uma história... sim eu gosto de escrever e estou deste modo a querer aventurar-me no mundo da literatura.

O romance consistirá na história, quase em forma de "um diário falado" de uma mulher que foi amaldiçoada... mas se mais quereis saber, tereis de acompanhar o blog para viver todas as aventuras desta mulher invulgar.

Nos comentários terei em conta qualquer ideia que quereis dar para o desenvolvimento da história, no entanto, o grande e grosso esqueleto desta obra já está praticamente definido.

Espero que gostem desta minha iniciativa e a todos: BOA LEITURA!

 

publicado por stevs às 17:06

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